VENHA PARA O NOVO TABABADO!

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sábado, 11 de janeiro de 2014

UM PERSONAGEM CONTRA O PRECONCEITO. REVISTA ISTOÉ ABORDA SUCESSO DO PERSONAGEM FELIX NA NOVELA DA REDE GLOBO CONFIRA MATÉRIA NA ÍNTEGRA.

CENA 1
- Eu gostei da Edith. Tínhamos uma relação conjugal.
- Jura? Vocês iam para a cama mesmo?
- Pra você ver que talvez eu não seja um cara assim tão definido, apesar de ter minhas preferências.
- Ué, Félix, você pode ser bissexual.
- Eu bissexual? Bichexual, né?
CENA 2
- Niko, sinceramente, não faço o seu tipo. E nem você o meu.
- Félix, você não tem tipo. Você tem pressa. Eu chamei você para dormir no quarto de hóspedes.
- Você me chamou com segundas intenções.
- Não sou esse tipo de pessoa que quer se aproveitar de alguém que chega aqui completamente por baixo.
- Por baixo? Frase de duplo sentido, hein? Quem gosta de ficar por baixo?
- Que? Eu não gosto nem de ficar por baixo.
Os diálogos acima foram travados na terça-feira 7 em um programa que, tradicionalmente, prima pelo conservadorismo, a novela das nove. Foi visto por cerca de oito milhões de famílias brasileiras, se considerada a média de audiência nacional da trama no dia, de 40 pontos. A conversa seria mais um roteiro banal de novela caso os personagens envolvidos não fossem dois homens gays que se tornaram o principal par romântico da história – Niko, papel de Thiago Fragoso, e Félix, em interpretação magistral de Mateus Solano. A despeito do formato pouco liberal, “Amor à Vida”, da Rede Globo, tem hoje o primeiro casal gay protagonista de uma novela, justamente a do horário mais nobre da grade. Segundo a Globo, telespectadores chegam a ligar para a Central de Atendimento ao Telespectador (CAT) da emissora para se manifestar a favor da dupla. Em grande parte, os louros pelo sucesso do romance são de Solano. Com uma interpretação minuciosa, pendendo ora para o humor, ora para o drama, o ator de 32 anos fez o espectador torcer para o mau-caráter que, nessa reta final, tem expurgado seus pecados de forma convincente. “Félix conquistou o telespectador como vilão por ser engraçado, emotivo, impulsivo, contraditório, como, em última análise, todos nós somos”, diz o autor Walcyr Carrasco. “A performance de Mateus Solano tem tudo a ver com o êxito da história”, afirma Maria Immacolata Lopes, coordenadora do Centro de Estudos de Telenovela da Universidade de São Paulo (USP).
Mas há de se pesar outros fatores para o sucesso da dupla gay, principalmente a mudança da sociedade, em que a maioria heterossexual tem se tornado mais sensível a temas ligados ao universo LGBT. Em outros tempos, casais homoafetivos tiveram suas histórias modificadas por causa da rejeição do público – o caso mais emblemático foi o de “Torre de Babel”, exibida pela Globo em 1998, em que duas personagens foram mortas porque os espectadores não aprovaram o romance lésbico entre elas. O próprio autor da novela, Silvio de Abreu, admite que, se fosse exibida hoje, a história não causaria tanta comoção. “Casais gays são uma constante nas tramas e já não assustam mais ninguém”, diz ele, que teve outros homossexuais em suas obras: Sandrinho (André Gonçalves) e Jefferson (Lui Mendes), de “A Próxima Vítima”. “A principio, a história deles havia sido vetada até pela emissora”, afirma. Não que o fato de Niko e Félix se envolverem tenha peso para mudar a sociedade ou indique que o preconceito está prestes a acabar. Mas, de alguma maneira, leva para os milhões de famílias que acompanham a trama diariamente um assunto que, em muitos lares, é considerado tabu. O interessante, no caso de “Amor à Vida”, foi que o romance homossexual parece ter sido uma vontade do público seguida por Carrasco, que não planejava, inicialmente, unir Niko e Félix. “Sou muito instável como o autor e justamente por isso é que hoje existe esse casal”, diz. Sempre atento às opiniões alheias, ele afirma que a mentalidade do País está mudando sim. “Casais formados por pessoas do mesmo sexo estão deixando de ser algo marginal à sociedade para entrar na legalidade.”
Ver dois gays se tornarem o principal casal romântico de uma novela, um produto de comunicação de massa exibido por uma emissora que, na iminência de perder audiência, sempre pende para o conservadorismo, é indício de que os tempos são outros. “É uma feliz junção de signos artísticos perfeitamente harmoniosos com uma nova etapa da evolução social”, afirma Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia brasileira e latino-americana pela USP. De fato, é um tema da agenda do País. Um dos marcos da discussão pelos direitos dos homossexuais se deu em 2011, quando o casamento gay foi reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal por unanimidade. “Por que o homossexual não pode constituir uma família? Por força de duas questões que são abominadas pela Constituição: a intolerância e o preconceito”, afirmou à época o ministro Luiz Fux. No ano passado, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) decidiu pela obrigatoriedade dos cartórios de oficializarem matrimônios entre pessoas do mesmo sexo. Também em 2013 a cantora Daniela Mercury assumiu seu relacionamento com a jornalista Malu Verçosa, fazendo o tema voltar à tona com vigor. A discussão, tanto no âmbito legal e político quanto no cultural, contribui para dar visibilidade ao assunto. “É uma maneira de quebrar estigmas retratando a questão com naturalidade. Faz os mais conservadores refletirem e pode ajudar quem está em conflito com a própria sexualidade a ver que outras pessoas passam pelos mesmos dilemas”, diz a psiquiatra Alessandra Diehl, coordenadora do curso de pós-graduação de Transtornos da Sexualidade da Universidade Federal de São Paulo.


Para Maria Immacolata, do Centro de Estudos de Telenovela da USP, o folhetim nacional é mais do que um retrato do cotidiano dos brasileiros. “Se fosse só isso, a novela seria muito mais conservadora. Acredito que ela elabora temas sociais e devolve uma discussão mais avançada. Tanto é que, no Exterior, quem vê nossas tramas tem a impressão de que os brasileiros são muito mais liberais do que de fato são”, afirma. Mas, para entender melhor a questão, é importante diferenciar o público do privado, segundo o psicólogo Paulo Tessarioli, especialista em sexualidade. “A temática gay é aceita com mais naturalidade na televisão do que no meio social. Individualmente, o espectador aceita ver um casal homoafetivo e até torce por ele. Porém, encontrar esse casal na rua, no espaço público, ainda assusta, porque coletivamente ainda existe muito preconceito.” Segundo o Grupo Gay da Bahia, organização que compila anualmente agressões contra homossexuais e transexuais, em 2013 foram registrados 306 homicídios de gays no País. O dado faz parte de um estudo inédito que será divulgado no final deste mês. “É um pouco menos do que em 2012, com 338. Mas o Brasil ainda responde por 44% desses crimes cometidos em todo o mundo”, afirma Luiz Mott, antropólogo e fundador do grupo. Já as queixas em relação a crimes de homofobia crescem timidamente. Em São Paulo, por exemplo, segundo a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), foram registrados nos anos de 2011, 2012 e 2013, respectivamente, 30, 41 e 49 boletins de ocorrência relacionados a delitos praticados contra a população LGBT – o órgão esclarece que esse número deve ser maior.
Para Mott, apesar de as novelas abordarem o mundo gay, ainda há uma forte homofobia cultural. “Muitos telespectadores só aceitam o gay como o engraçado, para provocar riso. É preciso mostrar os tipos diferentes, não só o caricato. Além disso, deviam exibir cenas de intimidade afetiva, como acontece com os casais héteros.” Em “Amor à Vida”, o casal “oficialmente” protagonista, formado por Paloma (Paolla Oliveira) e Bruno (Malvino Salvador), já encenou momentos quentes. Nem isso, porém, foi suficiente para mantê-los em alta. Já sem conflito para ser resolvido – e, consequentemente, sem brilho –, a grande expectativa de desfecho é entre Niko e Félix. Mais do que ficarem juntos, será que os dois vão protagonizar o famigerado beijo gay, um dos grandes tabus da tevê? Um selinho poderia ser um grande final para um casal pelo qual a audiência torce. Mauro Mendonça Filho, porém, diz que isso não é uma preocupação. “Acho que já rompemos outras barreiras na novela. Sendo bem sincero, essa questão até me soa como algo do passado.” Para Carlos Magno Fonseca, presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais  (ABGLT), a televisão está atrasada em adiar o tal beijo. “Mas mostrar um casal gay adotando uma criança é até mais importante, pois tem a ver com direitos civis.” Irineu Ramos Ribeiro, autor do livro “A TV no Armário – A Identidade Gay nos Programas e Telejornais Brasileiros”, acredita que dificilmente Félix e Niko vão protagonizar uma cena de afeto mais intensa. “Um beijo iria incomodar o público, e não é isso que a emissora quer.”
Com ou sem beijo, o grupo dos personagens inesquecíveis da teledramaturgia nacional ganhou um novo membro, graças à interpretação primorosa de Solano. E pensar que, antes de a novela estrear, o ator se preparava – e até torcia – para ser odiado. “Acho um barato ser um vilão e receber vaias”, diz (leia entrevista nas págs. 4 e 5). A missão era mesmo difícil. Retratado como vítima ou personagem submisso, o homossexual, dessa vez, apareceria malicioso e mau-caráter. Bem diferente do estereotipado Crô, personagem de Marcelo Serrado em “Fina Estampa”, de 2011/2012, e de vários outros papéis que carregavam na afetação. Mas bastou o primeiro capítulo ir ao ar para a “bicha má” se tornar um dos preferidos do público. Mauro Mendonça Filho, diretor da trama, chega a falar do “talento extraordinário” de Solano como explicação para o par com Niko ter dado tão certo. Para Fonseca, presidente da ABGLT, a interpretação é convincente. “O personagem tem o que chamamos de ‘pinta’, usa o linguajar gay, mas não é tão caricato como os de outras tramas.” No papel do bonzinho Niko, o ator Thiago Fragoso, que praticamente virou a “mocinha” da novela, tamanha a torcida para o seu final feliz, também deu muita contribuição para o sucesso da dupla. Tanto que já foi apontado por espectadores como um dos preferidos da trama. “Ele sempre foi carinhoso, justo e lutou para ser pai. Isso floresceu a empatia com o espectador”, afirma Maria Immacolata, da USP. O próprio Fragoso credita ao sonho do personagem de ter uma família uma das razões para a boa aceitação. “Me parece que, numa sociedade conservadora, o desejo de paternidade/maternidade é o melhor atalho para o coração do público”, afirma Fragoso. Soma-se a isso o sofrimento de Niko em diferentes partes da narrativa e, claro, a ótima interpretação do ator, que parece ter ficado ainda melhor desde o início do romance. “Ele fez uma composição sensível e foi o bom caráter da novela”, afirma o diretor Mauro Mendonça Filho. “Ficou fácil torcer pelos dois. Vejo crianças, homens rudes e senhoras conservadoras torcendo por esse amor.” Agora é esperar pelos próximos capítulos.
Fonte:Revista ISTOÉ

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